Por que usar Betaglucanos na alimentação dos cães?

Os betaglucanos (β-glucanos) são polissacarídeos não amiláceos encontrados na parede celular de fungos (cogumelos como Shitake, por exemplo), leveduras e algumas gramíneas, como aveia e cevada. Os betaglucanos podem ser considerados prebióticos, pois são componentes alimentares que não são digeridos, e quando chegam ao intestino são capazes de nutrir a flora bacteriana benéfica, modulando diversas reações que ocorrem nas células intestinais, o que traz diversos benefícios à saúde.

Veja por que os betaglucanos têm sido adicionados à alimentação de cães

Aumento da saciedade e prevenção de obesidade e diabetes

Quando os β-glucanos viajam através do sistema digestivo, eles se expandem em uma substância semelhante a um gel que reveste o intestino. Essa camada viscosa retarda a digestão e a absorção de glicose e colesterol. No cólon, as bactérias fermentam os Betaglucanos, produzindo ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Os AGCCs induzem sensações de saciedade ao produzir ou regular a secreção de hormônios envolvidos no apetite. Eles também melhoram a sensibilidade dos receptores de insulina nas células musculares. Diversos estudos mostram que esses processos desencadeados por β-glucanos melhoram a função cardiovascular e a regulação do açúcar no sangue em cães, reduzindo os níveis de colesterol e glicose.

Ajudam na saúde intestinal

Os betaglucanos são capazes de melhora a saúde intestinal do dos cães, estimulando o crescimento e a atividade de bactérias benéficas no trato intestinal.  Essas substâncias são consideradas fibras prebióticas  fermentáveis, necessárias para o crescimento de bactérias saudáveis conhecidas como probióticos.

Os probióticos em conjunto com os prebióticos protegem diretamente a imunidade intestinal, afastando bactérias nocivas e outros patógenos. Eles também produzem uma variedade de nutrientes, enzimas e outros compostos, melhorando a digestão e regulando a função de quase muitas células e reações que começam no intestino mas refletem em toda a regulação do organismo. Por exemplo, as bactérias intestinais produzem ácido fólico, que é crucial para a maturação dos glóbulos vermelhos. Um sinal clínico comum em cães com disbiose intestinal (desequilíbrio dessa flora) é um aumento significativo de ácido fólico no sangue, com queda dos níveis de B12, pois as bactérias que produzem ácido fólico competem com o cão pela b12 ingerida na dieta.

Os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) produzidos durante a fermentação microbiana nutrem o revestimento intestinal, promovendo hidratação, circulação, regulação dos níveis de pH entre outras ações dentro do cólon do cão. Na literatura científica há alguns estudos bem promissores do uso de betaglucanos como adjuvantes no tratamento da doença inflamatória intestinal (DII).

Modulação do sistema imunológico

A capacidade dos betaglucanos de regular e melhorar a resposta imunológica foi bem documentada em muitos estudos nos últimos 50 anos. E talvez seja essa a grande “força” dessas substâncias, em especial os  Betaglucanos purificados 1,3 e 1,6, derivados de frações específicas da parede celular de leveduras Saccharomyces cerevisiae. Esse é o tipo mais estudado e com melhores respostas nos estudos relacionados à imunidade. Estas pesquisas foram conduzidas in vitro (ou seja, em tubos de ensaio), bem como em estudos clínicos em animais e humanos.

Uma vez na corrente sanguínea, os β-glucanos ligam-se e estimulam a atividade de vários glóbulos brancos, incluindo macrófagos, neutrófilos, granulócitos, células dendríticas e células Natural Killer. Essas células do sistema imunológico inato protegem contra infecções e doenças como câncer, detectando e eliminando bactérias, células estranhas, células mortas, células defeituosas, e outros invasores prejudiciais que não devem permanecer e se proliferar no organismo.

O papel imunoestimulante dos betaglucanos parece recomendar sua utilização para animais em programas de imunização, para maximizar a resposta vacinal e a produção de anticorpos.

A imunomodulação proporcionada pelos betaglucanos purificados torna a sua adoção um importante aliado nos protocolos de tratamento de doenças de fundo alérgico ou de doenças inflamatórias crônicas que tenham uma imunomediação envolvida em sua fisiopatogenia.

Como dar betaglucanos para os cães?

A maneira mais utilizada e mais prática é sem dúvida via alimentação regular do cão, utilizando um alimento completo pronto que já tenha betaglucanos na sua formulação. Os alimentos da linha Zuppy Advance Super Premium, fabricados pela FVO Alimentos contêm betaglucanos purificados 1,3 e 1,6 em sua composição, o tipo mais estudado e com melhores resultados em literatura. Deixamos no final desse artigo alguns estudos listados.

É possível utilizar também fórmulas farmacêuticas ou suplementos que contenham eles na composição também. No Brasil, temos poucos produtos desses em comercialização, mas em países da Europa e nos EUA existem muitas opções, tanto para uso veterinário como para uso humano.

 

 

Estudos com Betaglucanos

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